Escrita Ordinária Cotidiana no Parque da Luz

Hoje eu ouvi um podcast muito bom, que me fez pensar nos blogs. O nome do episódio era "Palácio da memória", do Radio Novelo Apresenta. Esse é o segundo podcast que me faz refletir sobre a feitura destes blogs. 

O podcast contava duas histórias sobre "retenção do tempo", formas de reter o passado em um registro perene. A primeira história falou sobre filmes, o que foi muito legal pois eu e a Van descobrimos o cinema recentemente. A segunda história eu achei muito impressionante, pois fala sobre caderninhos, que nada mais são (ou foram) blogs analógicos.

A narradora da vez conta que a sua mãe mantinha gastos e looks caprichosamente registrados em diversos cadernos que ela teve ao longo da vida. Essa mãe faleceu aos 47 anos, de uma hora para a outra. No vazio da falta da mãe, a filha buscou por algo que fizesse sentido naqueles cadernos. Não encontrou. Pelo menos não por alguns anos. 

Já adulta, essa filha virou escritora e decidiu escrever uma peça sobre Osmarina Pernambuco. Osmarina foi uma mulher comum, como eu e você, que nasceu em 1919 e faleceu apenas em 2014. Ao longo de sua vida ela registrou, tão caprichosamente quanto a mãe da narradora, os acontecimentos do seu dia a dia em diversos caderinhos. Alguns exemplos:

"14 de Março de 1955 – Segunda-feira Passa de 21 horas. Estou cortando e costurando roupas para as crianças. Todos estão dormindo. Que bom poder dizer – estão todos dormindo – porque os filhos estão crescendo. Vão seguir a vida deles e haverá o tempo em que não poderei dizer – estão todos dormindo. 

20 de Abril, Quarta-feira, 1955 Acordei às 4:30 da madrugada. Tomei banho. Preparei café. Tomei um pouco de café. Fiz as mamadeiras de Pedro Jônathas e Cândida. Deixei no banho-maria. Corrigi 20 cadernos e fiz o plano de aula. Dei uma saída à tarde e comprei fazendas para fazer vestidos para mim, Yeda, Sílvia, Yara, Débora, Joaida, Zaida, Cândida e Sara. Comprei fazendas de diversas estampas. Comprei fazendas para fazer camisas e calças curtas para os meninos. A compra importou em Cr$ 677,00. Comprei fiado na loja do Tuffi. 

Passa de 22 horas. Tudo está silencioso. Estou pensando em minha vida. Estou com 35 anos. Gostaria de amar e ser amada. Gostaria de ter alguém que se lembrasse de mim com ternura"

Eu aprendi com a narradora dessa história que existe um tipo de escrita chamada "escrita ordinária cotidiana". E olha só, isso é exatamente o que eu faço aqui nos meus blogs. Escrita ordinária cotidiana. Tipo assim:

17 de Junho de 2024

Hoje acordei atrasada, de sobressalto, às 7h33. Saí correndo para abrir o computador e só consegui respirar quando vi que o primeiro paciente do dia era, por sorte, às 7h40. Lavei o rosto, escovei os dentes e comecei a tocar o dia.

Passei a manhã só, pois meu amor está viajando a trabalho, em São Luís do Maranhão. Eu não conheço São Luís, mas espero ir para lá um dia. De preferência com o meu amor. 

Passei a manhã preocupada com o lançamento das faltas do semestre na faculdade. Um trabalho de corno, como se diz no nosso tempo para indicar tarefas hercúleas, mas que acabou se transformando numa feliz surpresa: não vou precisar lançar nada. Pelo menos esse semestre, não.

Voltei para casa muito mais cedo do que esperava e logo peguei a Vickyzinha, nossa gatinha, para levar ao veterinário. Na verdade, para levar até a esposa do veterinário, para tomar um soro. Fomos recebidas pela Nancy, a esposa do veterinário, por volta das 16h. Fizemos o soro rapidinho, enquanto ouvimos histórias sobre o Felipe Augusto e a Nancy Helena, alguns dos gatos da casa. Voltamos embora, a Vickyzinha mais agitada na volta, querendo sair da caixa. Interpretei como sinal de melhora, está mais forte e mais bem disposta. Até acho que engordou um pouco, pois achei mais pesada quando peguei no colo. 

Cheguei em casa a tempo de fazer um pão, que deu ruim, na maquina de pão. Mas isso eu só soube quando voltei da academia, perto das 20h, para assistir o jogo do Palmeiras. O Palmeiras, aliás, ganhou de quatro a zero do Galo hoje, em um jogo importante pelo campeonato brasileiro. Estamos em quinto lugar na tabela. 

Meu amor me ligou, quando eu estava na academia. Me contou que o hotel é médio-bom, apesar de bem caro, R$ 500,00 a diária. Acontece que a localização é ruim, muito longe de tudo, em frente a uma praia praticamente deserta. Meu amor me disse que ia comer no hotel pois estava muito cansada, que sua palestra do dia tinha sido bom e que amanha tem mais uma. Mas vai tentar se divertir um pouco e combinou um drink na piscina com uma das suas colegas de trabalho. 

Os gatos comeram bem e eu reguei todas as plantas. Lavei uma maquina de roupa, fiz outro pão, que está assando agora, e dois potes de geleia de frutas vermelhas na máquina de pão. Já estão armazenadinhas nos seus potes esterilizados, esperando esfriar para entrar na geladeira. 

Agora vou dormir, não sei se no quarto ou na sala. O mingau dormiu a noite passada inteirinha abraçado em mim. A vickyzinha e a titi passaram a noite por perto. A bia dormiu no quarto e o Mingau Branco, só vi quando começou a miar logo de manhã.

Fiquei pensando que é muito legal fazer escrita ordinária cotidiana e que isso tem, no fim das contas um grande valor. Meu desejo com os blogs sempre foi reter um pouco do passado em um registro perene. E viajar no tempo através dos registros, lidos ou escritos. 

Por isso resolvi para aproveitar e atualizar alguns blogs. E lembrei de um passeio recente que foi praticamente um trabalho de campo em escrita ordinária cotidiana. 

A van deu uma palestra há poucos dias para um projeto chamado Transempreender. Ela me chamou para ir junto, mas não para ver a palestra e sim para passear no entorno da estação da luz, onde a palestra seria realizada. Nos imaginamos que eu visitaria o Museu da Língua Portuguesa, mas como era pago e eu estava desprevenida, resolvi andar pelo Parque da Luz. O resultado está ai embaixo. 






























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