Araçariguama
Hoje fizemos um bate volta para almoçar em Araçariguama, pequeno município paulista de 17 mil habitantes, cuja existência descobri hoje.
Almoçamos em um restaurante colonial chamado Casarão 54. O restaurante fica em uma casa bandeirante, casa de pouso dos bandeirantes durante suas viagens. É interessante essa estrutura, pois é algo bem paulista, não se vê casas bandeirantes, pelo menos não com esse nome, fora daqui.
No site do restaurante tem alguns vídeos que contam a história do lugar e um dos mais completos, segundo o próprio site, é esse vídeo de 1997 que conta a história do lugar e mostra detalhadamente como é feito o leitão a pururuca.
Uma coisa muito interessante sobre esse vídeo é que o restaurante onde nós almoçamos hoje está igualzinho, ipsis litteris, ao restaurante que pode ser visto no vídeo. Até os elementos mais significativos do paisagismo. Não fosse a qualidade da filmagem, que denuncia a idade da reportagem, daria para acreditar que foi filmado hoje.
Apesar do leitão a pururuca ser o carro chefe do lugar, comemos a costela no bafo, que estava simplesmente maravilhosa. E muito bem servido, tanto que o almoço de amanhã já está garantido!
Eu acho que o que mais me impressionou na casa foi o fato dela ter sido construída em 1628. Eu acho que essa é construção histórica mais antiga que eu já visitei no Brasil. As ruínas de São Miguel são de 1735.
Eu fico pensando como era o Brasil em 1628. A escola nos conta que até 1530 não rolou muita coisa por aqui. Em 1628 o Brasil recém tinha saído das fraldas. Será que essa casa abrigou bandeirantes que destruíram a redução de São Miguel do primeiro ciclo jesuítico em 1638, forçando o povo de São Miguel a se estabelecer em Concepción, no Paraguai? Grandes chances.
Araçariguama é um cidade bem pequena e aparentemente pobre, pelo menos aos nossos olhos cá em 2024. Fiquei pensando que era uma cidade sem muito sobre o que se falar, mas acabei descobrindo algumas coisas interessantes. Por exemplo: Os cavalos usados para a produção do soro antiofídico do Instituto Butantã são de uma fazenda de lá, a Fazenda São Joaquim.
Também aprendi que o nome da cidade, difícil de falar, deriva do Tupi e significa "lugar onde os araçaris bebem água". Araçari é um pássaro típico das florestas tropicais da América do Sul.
Ah, e temos algumas curiosidades sobre o Ouro. A cidade foi fundada quando um Capitão Mor de São Paulo descobriu ouro na região em 1590. Em 1926 ainda estavam explorando ouro por lá. Data deste ano a exploração da Mina de Ouro de Araçariguama pela empresa "Saint George Gold Mine". Achei curioso uma empresa com nome em inglês estar explorando nossa Mina em Araçariguama no começo do século, então fui procurar a respeito. Não achei detalhes sobre a empresa, mas observei que tem várias empresas estrangeiras com licenças para explorar ouro no Brasil até hoje, então acho que é só mais um exemplo do velho modelo de exploração do "Brazil".
Essa Mina foi fechada em 1934 pelo meu parente ilustre, Gegê. Getúlio Vargas descobriu em 1934 que estavam desviando ouro da mina e resolveu acabar com a papagaiada toda. Porém, pelo que eu entendi das reportagens que eu li, a Mina segue inexplorada apesar de ainda ter potencial para dar ouro.
Nossa viagem terminou um pouquinho antes da chuva chegar, em um ponto turístico da cidade chamado "Praça Santos Dumont". É uma praça que fica em um lugar bem alto, onde é possível contemplar a vista da cidade e das áreas verdes que cercam o município. Nesta praça está um avião que foi adquirido pela Prefeitura por 80.000 reais em 2006.
Olha que legal a história do avião que conta na placa da qual tiramos foto. Esse avião foi produzido em 1958 na Inglaterra. Chegou a transportar a Rainha da Inglaterra antes de ser adquirido pela finada VASP. No Brasil, foi usado como avião reserva da Presidência da República, tendo carregado o Juscelino Kubitscheck diversas vezes, inclusive em viagens que ele fez a Brasília para acompanhar as obras. O avião cumpriu seus deveres cívicos junto à força aérea até 1969. Não se sabe o que aconteceu com o avião após essa sua curta vida de glamour. Mas em 2006 ele foi resgatado, restaurado e hoje vive uma feliz vida de obra de arte e ponto turístico na pequena cidade de Araçariguama, "aquela que Deus ama" (lema da cidade). Esse é o happy ending do avião. Eu fico pensando: Eu, que sou eu, nem sabia que existia Araçariguama, imagina o avião que é inglês.
Tiramos bonitas fotos lá de cima. Adorei a versão da torre Eiffel com o 14 bis fazendo seu voo inaugural.
Mais cedo, se despedindo do restaurante, falamos o que sempre falamos: qualquer hora dessas voltamos. A verdade é que na maior parte das vezes não voltamos a esses lugares maravilhosos que conhecemos, simplesmente porque existem tantos lugares maravilhosos a serem conhecidos que nem dá tempo. Então fica aqui nosso agradecimento à Araçariguama. Obrigada. Quem sabe a gente volta um dia, mas se não voltarmos, foi um grande prazer te conhecer.

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