A Dutra e a longa estrada da vida
No final de semana que passou fomos para o Rio de Janeiro, para participar do chá de bebê da Joana, filha da Renatinha e da Rita, que estão agora de 34 semanas. O dia começou com uma piadinha de primeiro de abril. Acordamos as 5h30 da manhã para podermos pegar a estrada bem cedinho e mandamos uma mensagem para a Renatinha dando bom dia e dizendo que não íamos poder ir mais! Claro que a mensagem foi devidamente seguida de um "mentirinhaaa, primeiro de abril", afinal, a ideia era só não perder a piada e não perder a amizade.
Partimos de casa com uma malinha modesta, pois não sabíamos muito bem como seria o dia. A Vanessa, como uma boa paulista da gema da zona leste, não gosta muito de ir para o Rio de Janeiro. Ela acha a cidade bagunçada e perigosa, difícil de dirigir, então a principio nosso primeiro plano era irmos e voltarmos no mesmo dia, para dormir em São Paulo mesmo. Mas não tínhamos certeza de o quanto estaríamos dispostas para fazer esse bate volta, então havia um plano de B de dormir em Penedo, em algum hotelzinho bacana, já que fica bem no meio do caminho.
Nossa primeira parada foi na Vila Mariana para pegar a De em casa, pois ela iria com a gente. Chegamos lá as 6h50 e seguimos rumo à Laranjeiras, Rio de Janeiro-RJ, Brasil. Pelo GPS, 13h30 estaríamos no Rio, bem na hora em que a feijuca estaria começando.
Estava um bonito dia de sol. Denize como sempre é uma excelente companhia, então fomos matraqueando desde o minuto zero. Fizemos uma parada bem rápida no Graal, pois ninguém tinha tomado café da manhã. Tudo indo conforme o planejado até aí.
Eis que por volta das 11h, pouco mais de duas horas antes da nossa expectativa de chegada, Vanessa avisa que estamos entrando em um trecho de transito e pergunta se alguém precisa ir ao banheiro ou comer alguma coisa. Tinha uma ultima parada antes do trânsito, então a hora era aquela. Estava todo mundo bem, então não paramos e entramos no dito trânsito. Logo na entrada do transito, o horário de chegada reajustou em cerca de uma hora. E depois disso só cresceu.
Vou resumir a ópera pois as minhas habilidades narrativas não sustentam o minuto a minuto da história, ainda mais considerando que foram mesmo muitos minutos: Chegamos no Rio com 4 horas de atraso, passando das 17h.
Nossa viagem de cinco horas durou quase dez.
Vou contar o que aconteceu para ficarmos tanto tempo presas na estrada: um caminhão de sal tombou, quase na saída serra. E a gente bem no comecinho dela. Nós ligamos para a concessionária da estrada depois de umas duas horas paradas. A moça nos deu uma boa noticia: acabou de liberar a estrada! Ficamos felizes mas durou uns trinta segundos, porque logo ela disse que recém tinha recebido a informação de que dois carros tinham acabado de bater.
Por sorte, pouco depois disso começamos a nos movimentar, bem devagar, mas ainda assim para frente.
Esse poderia ser um relato de uma baita enrascada, viagem bucha, a maior fria, mas não foi. Foram quinze horas, contando a ida e a volta, de intensa, sincera e espontânea terapia de grupo. Foi muito bom mesmo e acho que fez bem para as três.
Logo que entramos no trânsito, Denize ensaiou ficar muito frustrada. Inclusive pq pouco antes disso tínhamos tido uma atualização de uns 30-40min na viagem e ela já não tinha ficado muito feliz. Só que eu e Vanessa estávamos muito de boa, porque um dos legados das nossas últimas férias foi compreender algo que já sentíamos: a viagem, para nós, não é sobre o destino, é sobre o caminho. Esse insight veio com um podcast do Mamilos sobre viagem com filhos que ouvimos quando estávamos indo para a chácara da tia Silvana, no finzinho das nossas férias de 2023/1.
Acho que nossa animação e tranquilidade conseguiu ajudar a viagem a ser mais leve para todas nós. Não foi uma delícia ficar parada tanto tempo, inclusive nós pensamos em dar meia volta e voltar para São Paulo várias vezes. Quem não permitiu foi a Dutra, que, como a vida, não anda para trás. A Dutra é uma excelente representação da longa estrada da vida.
Voltando para a sessão de terapia, conversamos sobre tudo nessa viagem, tanto na ida quanto na volta. Mas tudo mesmo.
O assunto principal da ida foram filhos. Conversamos muito sobre as crianças da De, as quais além de amarmos, admiramos muito. Descobrimos que o Lucas emagreceu quatro kilos porque ele não alcança o buffet do refeitório da escola tadinho. E falamos muito sobre as nossas tentativas de FIV, que infelizmente não deram certo. Essa conversa acabou desatando um nó entre eu e a Van, pois no dia seguinte, no café da manhã do hotel, falamos longamente sobre isso e chegamos a conclusões importantes. A mais importante de todas é que nos amamos e que a nossa vida é muito boa.
Na volta Denize foi nos mostrando coisas legais sobre a cidade. Passamos nas costas do estádio do Vasco. Alias, nessa viagem conhecemos também a sede do Fluminense nas laranjeiras, pertinho da casa da Re. Na saída da cidade, rumo a estrada aprendemos sobre as cidades da região metropolitana. Esse cenário permitiu conhecermos a história épica da família da Denize, desde que o bisavô dela chegou pela região e toda a história da casa onde hoje mora a mãe dela, casa esta que eu conheci, a proposito. Descobri que o Tio Rubens foi um grande personagem, até fiquei com pena de não ter conhecido o Tio Rubens direito.
Conhecemos um pouco sobre a historia do pai da De também. E aprendemos com a Denize que não devemos sofrer quando desejamos que alguém morra, independentemente do grau de ambivalência desses desejos. Nosso desejo sempre quer dizer algo que merece atenção e análise e no fim das contas, não é o nosso desejo que mata ninguém.
Eu confesso que ainda bato três vezes na madeira quando penso algo assim, mesmo que seja sobre o Bolsonaro, porque são muitos anos com a crença de que tudo que desejamos para os outros volta, etc. Mas achei libertadora essa conversa, de verdade.
Conversamos sobre carreira, religião, família, casamento, morte morrida, morte matada, suicídio, rememoramos toda nossa saga em Diadema e terminamos a tarde da volta relembrando os perrengues finais de São Bernardo. Inclusive um bônus adicional de termos passado o domingo todo viajando foi que o Palmeiras perdeu o primeiro jogo da final do paulistão para o Água Santa. Então nem precisamos passar raiva.
Nossa estadia no Rio mesmo, foi curtíssima. Mas foi gostosa. Só para não deixar de registrar: chegamos morrendo de fome e graças a deus ainda tinha comida. Uma feijoada deliciosa, que era do mesmo Buffet do casamento da Rita e da Re em 2018 (que eu fui! A Van ficou em São Paulo, ninguém lembra porquê). A Rita está com uma barriga linda e contou que a gestação está sendo muito tranquila. Contou que as costas só doem de mentirinha, quando ela quer que a Re faça massagem nas costas ou levante para buscar alguma coisa para ela :-)
Encontramos o Moises, a Ivi e suas respectivas proles. Mas conversamos pouco. A verdade é que levamos o caminho bravamente, mas estávamos muito cansadas na chegada. A Vanessa comeu e entrou em apoptose. Soubemos no dia seguinte que a Denize também, tanto que os planos de sair a noite foram pro espaço.
Encontramos os pais da Re. A mãe da Re é da cepa de pessoas que vivem no formol então ela estava igual sempre, jovem e bonita. O pai da Re já ostenta cabelos completamente brancos e foi a primeira vez que o vi assim. Me lembro dele da época em que a Re esteve internada na USP, pelo empiema. Na época ele tinha cabelo castanho. Mas o tempo passa e a gente não vê. Essa história do empiema faz muito tempo, estávamos em São Bernardo ainda, acho que eu estava no Jordanópolis ainda, lá para 2014. O pai da Re esta em tratamento no INCA e eu achei que ele está muito bem, apesar de tudo.
Depois de bater papo e comer, fizemos uma reserva no Novotel do Santos Dumont. Eu gosto do Rio. Confesso que no caminho do Hotel chegou a me dar vontade de ir pro bar com o pessoal (se é que eles iam para um bar!), mas eu realmente prezo pela sabedoria que a idade me trouxe. A hora de curtir adoidado é quando o sol cai. Eu aprendi isso, no próprio Rio de Janeiro, quando fui para o Euract, no ano que conheci a Vanessa. Naquela viagem nós saimos do curso com uma turma e fomos para um bar. Fechamos esse bar e fomos para o do lado. Fechamos o bar do lado e fomos embora pro Hotel felizes da vida, mas preocupadas com o dia seguinte, achando que eram altas horas da madrugada e que já já o sol ia nascer, quando na verdade não era nem meia noite. Imagina a alergia de curtir a vida como se fosse madrugada alta e chegar no hotel a tempo de tomar um banho gostoso e dormir o suficiente para acordar sem olheiras no dia seguinte? Não tem preço. De modo que começar a noite depois das 21h é algo completamente sem futuro.
Chegamos no Hotel e conseguimos ver a nossa novela das 19h (Vai na fé) e o Flaflu, primeiro jogo da final do campeonato carioca. Para mim foi uma noite ótima.
O dia seguinte já contei. Essa foto abaixo foi tirada na hora de ir embora. Só o que eu não contei ainda é que eu fiz uma pequena pesquisa sobre a Dutra no hotel. Desde que passamos pelas BR 040 e 265 nas férias de 2023/1, desenvolvi esse interesse em conhecer as estradas pelas quais passamos.
- A Dutra foi inaugurada em 1951, pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra.
- A primeira estrada que ligou Rio-SP foi inaugurada em 1928 pelo presidente Washington Luis. O nome da via era "Rio-São Paulo". Construída a Dutra, a Rio-São Paulo deixou a ser utilizada, exceto em dois trechos que são hoje a BR-465 e RJ-139.
- Hoje a Dutra é a BR-116, mas já foi BR-02, época em que era pista de mão única. A duplicação da via veio apenas na década de 60. Eu não faço idéia de porque a Dutra deixou de ser BR-02 e virou BR-116, mas olha como a vida é engraçada: descobri que a BR-03 é a BR-040, a famigerada que nos leva de Brasília a BH. Essa última, pela qual nós passamos nas férias de 2023/1, foi inaugirada pelo JK.
- Aprendi também que a Dutra foi uma impulsionadora do transporte Rodoviário. A viação cometa e a Itapemirim são dessa leva.
-50% do PIB brasileiro transita por essa rodovia.
Estrada da Vida
Milionário e José Rico
Nesta longa estrada da vida
Vou correndo e não posso parar
Na esperança de ser campeão
Alcançando o primeiro lugar
Na esperança de ser campeão
Alcançando o primeiro lugar
Mas o tempo cercou minha estrada
E o cansaço me dominou
Minhas vistas se escureceram
E o final da corrida chegou
Este é o exemplo da vida
Para quem não quer compreender
Nós devemos ser o que somos
Ter aquilo que bem merecer
Nós devemos ser o que somos
Ter aquilo que bem merecer
Mas o tempo cercou minha estrada
E o cansaço me dominou
Minhas vistas se escureceram
E o final desta vida chegou
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